Das mentiras - e das verdades - de todo dia

Terminei ontem de ler Mentiras no Divã. E, a despeito do que tinha dito antes, no fim não achei nada chato. O livro não tem uma narrativa linear e por isso é difícil, digamos, se acostumar com ele. São várias histórias envolvendo o relacionamento entre terapeuta e paciente e num certo ponto essas histórias começam a ter continuidade e a fazer sentido. Até lá, fiquei achando o livro um pouco cansativo (até porque quando eu estava começando a me empolgar com uma história, outra menos legal aparecia). Mas tirando isso o livro me surpreendeu demais.

Fala, como é óbvio, das mentiras que existem nessa relação entre terapeuta e paciente. Mas eu acho que é mais que isso. Ele fala sobre papéis que assumimos em alguns momentos da vida e em como esses papéis, muitas vezes, se distanciam daquilo que de fato somos. Isso aparece com muita clareza nos pensamentos dos terapeutas da história, que vez ou outra pensam que no relacionamento com seus pacientes gostariam de ser mais honestos ou se despir da carapuça de médico que têm que assumir no tratamento. É bem interessante e esse assunto me interessa demais. Porque também tenho uma profissão que, por demandar um enorme contato com as pessoas, por vezes me exige que eu também vista o papel de professora, em muitas coisas tão diferente daquilo que eu sou. Já comentei aqui o quanto me sinto desconfortável na função de avaliadora, apesar de gostar de fazer isso e este ser sempre um desafio enorme prá mim. Mas não é muito meu e eu sempre faço com um cuidado enorme, como se estivesse mesmo pisando em ovos. Questiono o processo, me questiono, questiono os outros, é cansativo (mas visto a persona, claro)... Talvez se eu, nesse aspecto, fosse mais professora, não questionaria tanto.

Mas isso é só um pouco do que o livro me provocou, e nem é o mais importante. O assunto chave, que me tocou demais, foi mesmo o limite que nos deixamos ter entre nos mostrarmos inteiramente ou não. Há casos patólogicos (bem mostrados no livro), daquelas pessoas que deliberadamente criam um personagem prá si mesmas, mas sei que essa é uma decisão que tomamos a todo momento e de vez em quando eu fico pensando em como seria o mundo se, de fato, nós nos mostrássemos inteiramente uns aos outros. Honestidade total (um pouco como os teóricos matemáticos imaginavam - uh, aula de teoria da comunicação aqui não, né Renata?). Em que lugares, situações e com quem somos mais honestos? Por que não somos assim o tempo todo? Quais os medos e receios que temos?

Assunto de terapia, esse.